Arquivo para Tipo Menina - Daniele Barreto
15
janeiro
2015
Seja você! #ComoUmaGarota

Olá, meninxs, queria falar com vocês sobre uma questão pessoal!

(post-desabafo-pessoal)

Olha, a partir de agora vão ter mais textos sobre feminismo e empoderamento feminino. Ainda não me sinto nem um pouco a vontade para escrever textos sobre o tema, pelo pouco (ou quase nenhum) conhecimento que possuo na área (fora o laaaaaaargo conhecimento prático de “machismo na pele”), então vou passar a dividir com vocês o que leio, textos, links, livros (na verdade ainda não comprei nenhum), páginas no Face para seguir (leio algumas beeem interessantes diariamente), canais no Youtube. Enfim, o que eu for descobrindo e me ajudar nesse processo, vou passar para vocês, tá? Quem sabe não conseguimos nos ajudar mutuamente, né?

Mas queria começar o ano mostrando uma campanha belíssima de Always Brasil (que talvez algumas de vocês já conheçam porque não é uma campanha recente) e que me fez refletir e sentir muita coisa relacionada à forma como ainda se encara a mulher no mercado de trabalho (especialmente em minha área de atuação: a política)!

Antes de postar o vídeo, explico o que me tocou: a campanha da Always mostra como, especialmente na adolescência, nossa concepção de “ser menina” muda. Não raro, somos vítimas (no colégio, com parentes e amigos) de frases e comportamentos que limitam nosso desenvolvimento. Dentre diversas formas de limitação, uma delas se dá mediante frases que imprimem desconfiança sobre as nossas capacidades e que se constituem em jargões muito comuns na adolescência.

Quem nunca ouviu, por exemplo, que não queria sua companhia no time (de futebol, basquete, o que for), porque você joga “como menina”? Essa expressão “como menina” vem sendo usada sempre pejorativamente para tentar passar a ideia de fraqueza, incapacidade, impossibilidade, delicadeza extrema (e limitadora).

Esses conceitos vão sendo arraigados em nossas cabeças. E com o passar do tempo, com o ingresso na faculdade e no mercado de trabalho, vamos, cada vez mais, tendo que ou se limitar aos espaços que são concedidos (ao “lugar de mulher”) ou lutar feito loucas para “mostrar que podemos”, “mostrar que somos competentes” etc.

Eu que lido com política escreveria um tratado aqui sobre as dificuldades que essa mentalidade imprimem no meu dia a dia, permeado pela misoginia e machismo típicos dessa área. E o quanto, inclusive, as mulheres reproduzem esse machismo também (e eu o reproduzia em alta até 1 ano e meio atrás). Não querendo vitimizar, mas nessa minha área, o assunto é, particularmente, ponto nevrálgico em meu desenvolvimento profissional (vou abordar isso em outros post mais adiante). Além de lidar com todo tipo de assédio e submissão, muitas ainda passam a existência tentando provar a sabe-se lá quem sabe-se lá o que. Siiim, porque nada que se faça é suficiente para provar sua competência em determinados círculos. Ah, e “assediar para constranger e limitar” tem sido uma máxima no meio político em nosso país (e ressalto a Bahia nesse cenário).

Mas nem vou falar apenas de trabalho prático no meio político… Vamos às questões relacionadas ao blog também.

Quando resolvi fazer o blog, não me identificava com o padrão preto-branco-azul/vermelho da maioria das páginas sobre política que leio diariamente. Nem me identificava com o formato e design das páginas de comentaristas e colunistas mulheres. Embora ame o conteúdo de algumas, a disposição da página não representava o que eu faria caso o blog fosse meu.

Mas aí, a partir do momento em que resolvi ter uma página própria, queria imprimir nela minhas vontades e personalidade! (aí começou o problema!!!) Isso porque amo outras cores, como o rosa, lilás, amarelo, azul também. Eu, no fundo no fundo, queria o óbvio: construir um blog pessoal que comunicasse comigo, que fosse minha cara e transmitisse o que sou. De aparências falsas já basta o que temos que viver por obrigações sociais; então não iria (em algo que deveria/deve me dar prazer) me esconder atrás de estereótipos e marcas impressas por outras pessoas. Se na vida já temos que omitir vontades, que pelo menos no nosso lazer, hobby, amor, possamos ser livres.

Então, pensei que se fosse para me adequar ao “politicamente esteticamente correto para uma página sobre política”, eu preferia não criar um blog!

Só gostaria de ter uma página se fosse para expressar o que sou e, inclusive, quebrar barreiras que impõem, por exemplo, que para ter “credibilidade” e mostrar “seriedade” devemos nos adequar ao que está imposto… No meu caso, a imposição social/profissional é: um blog com um layout clean, sério, cores neutras e esteticamente compatível com área (sem frufrus, basicamente).

Ou seja, nada de florzinha, rosinha, borboletinha, cores vibrantes, desenhos, sei lá mais o que.

Só que seguir esse padrão jamais seria possível, porque eu decidi por imprimir o que sou, independentemente das consequências. E passei a acreditar cada vez mais na necessidade de afirmar minha identidade diante da série de preconceitos, pré julgamentos e injustiças que ouvi de muita gente.

Na época, não comentei (apenas com alguns amigos pessoais), mas hoje resolvi falar sobre isso. Vocês não imaginam as centenas de e-mails, mensagens privadas que recebi com críticas terríveis a meu respeito. Falavam que “achavam que eu tinha credibilidade” até eu fazer “isso”. (“isso”, no caso, era ser eu mesma e lançar um blog de política feminino, com design delicado e com minha cara) (obs.: não sou delicada, não faço o tipo fofinha, não tenho paciência com frescura, falo alto e sou ‘meio’ grossinha e firme; mas amo cores vibrantes, brilho e design over. Vou fazer o que? Parece contraditório? Mas é assim que é.)

Na época em que lancei o blog, recebi centenas de mensagens de pessoas dizendo que não leriam mais meus textos (em regra homens), que eu não passava mais credibilidade, que meu blog não passava seriedade, que eu destruiria minha carreira profissional passando uma ideia muito infantil e delicada da política. Em detrimento ao conteúdo, as pessoas criticavam a forma e o design do blog.

Óbvio que eu sei (como boa estudante de marketing político) que o design é quase tudo numa página. Óbvio que sei que 90% dos leitores são atraídos pelo estímulo visual (e que muita gente que lê sobre política se atrai por outro tipo de estética). Óbvio que sei que existem cores que passam sensações como delicadeza, força, credibilidade e seriedade, e não por outro motivo as pessoas exigiam que eu me adequasse a esse padrão, até porque, no cérebro delas, ao entrar na página eram – inconscientemente – levadas a sentimentos e sensações diferentes do que uma página de política deveria passar. (e o design e as cores influenciavam diretamente nisso)

Eu tinha, portanto, após 2 ou 3 meses de blog, colecionado torrentes de críticas, caixa de entrada cheia de e-mails falando mal e uma porção de amigos pessoais que ou riam quando falavam do blog ou me ridicularizavam. Siiiim, isso mesmo! Vários amigos me ridicularizaram em rodas de política, em festas e encontros. Alguns escondidinhos (mas muita coisa chegava aos meus ouvidos) e alguns, PASMEM, falavam na minha cara (#chocada). Ouvi coisas que me fizeram corar em mesas de bares, restaurantes e reuniões. Fui ridicularizada pessoalmente por políticos conhecidos na Bahia, que, inclusive, em uma reunião, gargalhavam falando que jamais daria certo um “blog tão feminino sobre política” e que eu era “louca e ingênua”. Já chorei e já achei que desistiria.

Mas o que mais me motivava a manter a página era que quando eu perguntava acerca do conteúdo, ouvia coisas como: criativo, bacana, importante, relevante, divertido, inteligente, maravilhoso etc. Ouvia demais: “o conteúdo é excelente, o problema é que o blog é rosa”, “o conteúdo eu adoro, mas o visual não passa credibilidade”, “eu gosto do conteúdo, mas o design me incomoda”.

Ou seja, as pessoas aceitavam/gostavam do conteúdo, mas se incomodavam porque se tratava de uma página que mexia com suas crenças e valores – ainda mais num meio complicado como o que eu sempre vivi.

Mas eu não tinha opção, tinha que encarar! Por dois motivos: primeiro porque não sabia ser de outro jeito (afinal, sou uma garota que tem esse gosto pessoal) e segundo porque os leitores sempre me mandaram tantas tantas tantas mensagens lindas e me deram tanta força que jamais eu desistiria de expressar meu entendimento sobre política de forma verdadeira e sendo eu mesma (e ser eu mesma perpassa por coisas como: não me vender, não alienar o conteúdo, pesquisar, virar noites lendo e estudando, ter um padrão estético que me identifica).

Minha sorte consistia no fato dos leitores do blog elogiarem muito (principalmente nas redes sociais) e me darem muito incentivo e força. Sem isso, acho que não teria prosseguido e chegado ao nível de segurança que tenho hoje!

Claro que num meio em que as mulheres têm que vestir com essa ou aquela roupa para não ser assediada, ou que tem que se comportar dessa ou daquela maneira porque senão será desrespeitada, encarar as críticas de frente não foi fácil.

Mas no fundo eu sabia que eu precisava encarar, por mim e por todas nós. Afinal, mais do que um julgamento acerca do design, o que estava em jogo era algo maior: a opressão, o machismo e necessidade de ‘masculinização’ da mulher para ser bem aceita no ambiente político (ressalto: não tô aqui cuspindo regra de feminilidade nem do que significa ser ou não masculina, ou sei lá o que… tô falando de uma experiência pessoal e de “ser eu mesma”, portanto, não quero impor qualquer tipo de regra, obviamente. Seja você mesma, da forma como quiser!). Um meio que exige que você se pareça com ELES para que ELES te aceitem. (ou então que tenha um “padrinho-de-cama” muito poderoso, que te banque no meio político.

Claro que, sendo feminina, será muuuuuito beeeem aceita, mas para outras finalidades (e falo bem mais da direita conservadora do que da esquerda), especialmente as sexuais (e não tenho nada contra quem faz disso um instrumento de crescimento profissional na política; APENAX não é minha pegada). Para a finalidade a qual eu me propunha, eu teria que mostrar algo mais aceitável aos olhos masculinos – tanto em roupas, como no design e cores – como premissa básica para que fosse considerada alguém com força, competência e personalidade. Resumindo: para ser aceita por eles, tem que se parecer o máximo possível com eles (e se submeter aos seus padrões de boa profissional).

Mas isso eu não queria. E segui do meu jeito. Porque uma hora teremos que acabar com tanto preconceito, abrir portas para uma nova mentalidade que possibilite que as pessoas não tenham suas “competência e credibilidade” mensuradas pela cor da roupa que usam, pelo decote do vestido ou pela cor do design de um blog.

Mas algo maravilhoso me incentivou (silenciosamente) a prosseguir dessa forma: o número de acessos aumentando a cada dia. E hoje, que temos aproximadamente 2 anos de blog, as estatísticas de visualização só aumentam, as curtidas, a interação e o apoio só aumentam. Então, vim aqui contar essa historinha para vocês e, com ela, AGRADECER a cada leitor do blog, que me faz prosseguir a cada dia e que não me deixa desistir de falar de política “do meu jeito”, do jeito que penso, que sou e que vivo. Vocês que me permitem viver a “política à flor da pele”, sem desistir de ser exatamente o que sou.

Nós, mulheres, não precisamos mudar nossa forma de ser para mostrar competência em áreas povoadas de machistas/misóginos, nem precisamos colocar nossa personalidade de lado para se adequar ao que o amiguinho preconceituoso ou a amiguinha que reproduz o machismo querem. E falo como alguém que, até 1 ano e maio atrás, reproduzia o machismo de forma brutal (aí é história para outro post… rsrs). (acredito que eu era uma das mulheres que conheço que mais reproduziam o machismo)

Então, quando vi esse vídeo da Always, logo pensei em compartilhar com vocês: o vídeo, minha história (da qual cada um de vocês faz parte) e minha alegria em, olhando para trás, saber como cada um de vocês contribuiu para que eu tivesse força e encarasse esse desafio de frente.

Obrigada a todos os leitores do blog e amigos das redes sociais; e saibam que para mim, vocês não são uma estatística do google analytics (rs), mas parte fundamental de minha vida e ferramenta basilar para que eu faça as coisas como sou: com dedicação, firmeza, empenho, disciplina, delicadeza e feminilidade. E que eu possa colorir a forma como falo de política, imprimindo no que faço o meu jeito de ser e viver.

E aos que não acham que o design da página, que minha aparência ou que usar o humor e a feminilidade não combinam com o conteúdo político, deixo alguns recados: vai ter análise política feita por uma garota; vai ter look do dia; vai ter dica de alimentação, esmalte e maquiagem; vai ter tudo que uma mulher que trabalha na política gosta; vai ter rosa e lilás; vai ter borboleta e Frida; vai ter fotinha em balada; vai ter crise de romantismo misturada com comentário político (porque mesmo quando faço uma análise fria, não deixo de ser quem sou e sentir o que estou vivenciando como mulher e ser humano no momento); vai ter indireta pro boy; e se reclamar eu deixo o cabelo do suvaco crescer, pinto de verde e posto aqui. Porque funciona assim, tá?

Então, vou seguir fazendo um blog “como uma garota”, falando de política “como uma garota”, escrevendo artigos políticos “como uma garota”, lutando “como uma garota”, crescendo “como uma garota”, estudando “como uma garota”, correndo atrás dos meus sonhos “como uma garota”, trabalhando “como uma garota”… porque eu sou uma garota!

Segue o vídeo:

#PolíticaComoUmaGarota #FaçaDoSeuJeito

E uma observação: estou relacionando o concento de “ser garota” à uma ideia mais feminina (em formas e cores), porque estou falando DE MIM. Mas não acho que uma coisa está atrelada a outra, obviamente. Quando falo sobre não me ‘masculinizar’ ou parecer mais velha ou mais séria, estou falando de minha experiência especificamente. Estou falando em ser obrigada a fazer o que não quero para me adequar a um meio no qual os homens (e as mulheres que reproduzem o machismo) exigem isso de mim. Se para você, ser garota tem um outro padrão estético, maravilha! Acho lindo qualquer padrão!!! Mas acho lindo nos outros… Em mim, acho lindo O MEU PADRÃO! O que eu quis com esse texto, em resumo, é explicitar o que é para mim “ser garota” é “fazer o do meu jeito”: ser aceita como você é e quer ser, é agir conforme suas vontades. Não estou aqui colocando como universal a forma como encaro meu corpo, minhas preferências, meu blog, minha profissão e minha vida, não. Estou apenas falando que estou aprendendo a fazer “do meu jeito” (aprendendo! aprendendo!)Faça do seu jeito!

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Bjo.