» Feminismo capa de revista - Daniele Barreto
07
dezembro
2015
Feminismo capa de revista

Pessoal,

Ontem à noite (pra falar a verdade já umas 3h da manhã de hoje), dando uma olhada em um grupo do Facebook que faço parte, o Clube do Livro da Noelle, vi que Stephanie Noelle, a criadora da página, escreveu um artigo incrível no site Petiscos, da Julia Petit, no qual ela trabalha, sobre a capa da revista Elle de dezembro, que fecha o ano tratando do assunto mais falado de 2015: feminismo.

Super inspirada no post da Noelle (cujos blog e canal do Youtube adoro, leio e assisto diariamente, diga-se), resolvi compartilhar com vocês as capas, e as opiniões minha e a da Ste.

beyonce feminista

Explicando…

A Revista Elle

Elle é uma revista de moda feminina – a maior revista de moda do mundo em circulação desde 1945, em 60 países. A revista é uma referência no setor e lança modas e tendências.

As capas

Dia 30.11, a revista Elle Brasil divulgou as quatro capas de sua edição de dezembro. A revista publicou modelos com atitude e frases comuns entre as feministas. A campanha de divulgação será veiculada em 30 pontos de ônibus digitais de São Paulo – atingindo milhões de pessoas com os dizeres e a mensagem feminista. <3

Como engajamento nas redes sociais faz parte de qualquer boa campanha publicitária hoje, a revista criou hashtags #JuntasSomosMais e #MexeuComUmaMexeuComTodas que devem ser compartilhadas pelos leitores em fotos ou postagens sobre as capas – no Instagram, Facebook e Twitter.

Confira as quatro capas diferentes:

elle feminista elle feminista 2

As revistas já estão nas bancas e amanhã vou comprar para discutir com vocês sobre o conteúdo! Mas vamos aproveitar a oportunidade para falar mais de feminismo e empoderamento.

Como vocês puderam acompanhar aqui no blog, o feminismo em minha vida é algo bem recente. Até uns 18 meses atrás, eu reproduzia o machismo sem me dar conta do quão problemáticas eram minhas posturas e posicionamentos; assim como sem uma visão mais geral das consequências do machismo (inclusive, na minha vida). Foi a partir de problemas pessoais (incluindo profissionais) vividos por mim que, ao ler o texto de uma colega feminista no Facebook, eu me identifiquei e me abri à possibilidade de estudar mais, ler, interagir e desconstruir conceitos e padrões de comportamento que me limitavam, envenenavam e, e, acima de tudo, me feriam e silenciavam.

No início, eu não sabia se queria “aderir” e fiquei bem confusa, pela falta de base teórica.

Eu era a pessoa que dizia: “não sou nem feminista nem machista”, “eu concordo com muita coisa do machismo”, “feminismo é coisa de mulher mal resolvida”, “feminismo é o oposto do machismo”, “tudo que é radical é ruim”, “desnecessário ir para manifestações sem sutiã”, “isso é coisa de menina piriguete que quer se esconder atrás de militância”. Sim!, é uma vergonha que eu tenha passado mais de duas décadas dizendo isso. Só que eu confesso. Confesso e me envergonho. E confessar isso, me fortalece para eu seguir evoluindo (e pode ser que ajude você a encarar seus medos e receios de SE TORNAR FEMINISTA). E ter vergonha disso me faz perceber o quanto, em qualquer que seja o assunto, eu tenho que, SEMPRE, ler e estudar mais antes de me posicionar (para não me envergonhar posteriormente de outras posturas e comentários). Essa cautela vou levar para a vida!

Nesse processo de auto descoberta (vou falar mais num vídeo que vou gravar para o canal no Youtube) e de empoderamento, me deparei com várias meninas, coletivos, revistas, grupos do Facebook que, aos poucos, me ensinavam mais e mais com cada experiência, relato e texto.

Se identificar com o que cada menina escreve é inevitável.

E por aqueles desígnios do destino, abri muito minha percepção, em 2014, para a necessidade de me aproximar do feminismo – mas, infelizmente, não o suficiente para compreender conceitos e fortalecer-me.

Fechei o ano de 2014 mais confusa do que com novas convicções. É, galera, sair da zona de conforto dói. Por mais que nessa zona as coisas estejam ruins, sair dela exige muitos sacrifícios. E como lidar com a mudança do status quo? Como lidar com ouvir coisas que você sempre ouviu e concordou, mas que agora te machucam mais? Como lidar com a insatisfação em pensar: que bobagem está sendo dita, mas eu já pensei assim? Como lidar com trabalhar ou estudar obrigatoriamente com reacionários retrógrados enquanto você está em pleno processo de desconstrução. Sim!, porque não dá para viver numa bolha, o feminismo vem justamente para nos fortalecer possibilitando empoderamento para uma (sobre) vivência NESSA sociedade. E acredite: quanto mais você lê e estuda, mais frases problemáticas começa a identificar, e mais desagradáveis e repugnantes ficam os machistas ao seu redor (alguns que você até lidava sem tanto problema há uns meses atrás)… É doloroso! Há uma transição dolorosa. Mas é libertadora!

Mas aí veio 2015 (algo só comparado a um tsunami em minha vida hehehe), e numa bela coincidência das deusas, meu janeiro já começou ampliando a amizade com feministas baianas, frequentando novos e empoderadores lugares (sim!, encantos do Rio Vermelho, festas de blocos afro, palestras em Salvador, disciplinas como aluna especial do mestrado de Ciências Sociais no campus de São Lázaro / UFBA), para logo depois o tema virar manchete nos noticiários nacionais. Uma doce coincidência: a medida em que eu dava meus pequenos passos, via o assunto inundar páginas de revistas, sites e as redes sociais. Me proporcionando, assim, mais conteúdo sobre o tema.

Eu só não leria e aprenderia, só não refletiria sobre meus (pré) conceitos, só não redirecionaria meu posicionamento, só não desconstruiria SE NÃO QUISESSE, porque a cada dúvida que surgia, textos brotavam sobre o assunto, meninas postavam sobre o tema, garotas escreviam artigos. E eu caminhava devorando tudo. Algumas vezes sem entender direito o que elas escreviam, outras vezes mandando mensagem privadas para as autoras me ajudarem a compreender e outras varando noites lendo relatos (sozinha mesmo). Uma experiência muito agradável (a não ser pelo coletivo feminista que me impediu de entrar num evento porque… pasmem… presto consultoria para um político que elas simplesmente não gostam. AHÃ?! E elas me disseram isso. E me impediram… mas esse vai ser um outro post, ainda esse ano, tá?)

A cada pequeno passo que eu dava, percebia o quanto tinha (tenho!) a aprender e o quão importante entrar nesse processo de desconstrução exatamente nesse momento do cenário político nacional. (especialmente por ser alguém que trabalha com política, escreve sobre isso e é considerada formadora de opinião – portanto, que maravilha passar pelo processo de mudança de opinião, passar por uma desconstrução tão salutar, podendo compartilhar com vocês e trocar informações, angústias, dúvidas, crescimento)

“O ano começou com ele (teve #askhermore, teve discurso da Patricia Arquette no Oscar…) e termina com ele, com a revista brasileira Elle fazendo um manifesto feminista em sua edição de dezembro, com quatro capas diferentes fotografadas por Nicole Heiniger e dizeres iguais aos que clamamos todos os dias, nas ruas ou em posts das redes sociais. O ano foi bem intenso.” Stephanie Noelle

Quando a Patricia Arquette fez seu discurso, eu mal sabia o que era sororidade – um conceito ainda pouco sedimentado em minhas relações. Mas a identificação sutil e sensorial indicava que deveria estudar mais sobre aquilo, ler mais, me abrir mais. E um misto de certeza e insegurança me indicava que muitas das soluções para problemas que vivo diariamente – que me adoecem, e que já me fizeram perder  posições profissionalmente, e que me deixam desesperançosa de alcançar meus objetivos e sonhos em um meio tão machista/misógino/homofóbico/racista – estavam (estão) no fortalecimento como mulher, como alguém que vivencia esses problemas não de uma forma individual (como eu achava antes, que se tratavam de problemas “meus”, direcionados a mim e que me faziam questionar meus comportamentos e competência), mas um problema de gênero.

E na área na qual trabalho isso, por si só, já é tão reconfortante. Saber que “não é culpa minha”, saber que “não dei motivo”, saber que “não vou conseguir certos benefícios não por ser incompetente, mas, justamente, por ter competência e dignidade”…

“Muita gente ‘saiu do armário feminista’ e se assumiu ativista, engajada, encontrou sua voz pra falar do assunto, pra reclamar seus direitos e apontar machismos do dia a dia. Muita gente parou de torcer o nariz e começou a entender que feminismo não é o oposto de machismo, muito pelo contrário. E a noção de que uma feminista é alguém que luta pela igualdade política, social e econômica de gêneros foi se espalhando, tímida no começo, sem vergonha nenhuma no final.” Stephanie Noelle

Feminismo foi a palavra do meu 2015! me assumi, encontrei minha voz, reclamei meus direitos, adotei outra postura na vida, compreendi o que significa a luta pela igualdade, identifiquei privilégios em relação às meninas negras/gordas.

Feminismo foi a palavra do meu mundo particular – e, como coloquei acima, vou gravar um vídeo falando das mudanças que implementei na minha vida pessoal, no meu trabalho (especialmente por trabalhar, ao longo da vida, para políticos reacionários, enquanto Consultora Política e Advogada). Se você não buscar um processo sólido de empoderamento, você pira!

E Feminismo foi a palavra dos debates políticos nas redes sociais, jornais, revistas, sites! Que bom!

“Foi pé na porta mesmo, tanto que semana após semana era uma polêmica nova. Também pudera: nossa sociedade é extremamente machista (homens e mulheres) e os comportamentos abusivos e que tentam naturalizar e perpetuar a desigualdade de gêneros estão intrincados ao nosso dia a dia. Da hora que a gente acorda até a hora que vai dormir, vivenciamos ou ao menos presenciamos -física ou virtualmente- algum tipo atitude, comentário, notícia que provam que sim, o feminismo tem muito que existir e muito o que fazer pela frente. Nós estamos só começando.” Stephanie Noelle

Noelle foi muito feliz com suas afirmações. Minha sensação é exatamente essa, de que o machismo permeia todo o nosso dia. No meu caso especificamente, não me dava conta de que uma série de problemas profissionais que vivia dava-se pelo fato de lidar – diuturnamente – com machistas (não raro, misóginos), cujos critérios de avaliação profissional e de crescimento são conduzidos por mentes perversas cujas atitudes e forma de pensar fariam corar qualquer coronel do século XIX. (sim!, Bahia)

E quando se trata de falar sobre política, analisar cenários políticos, posicionar-se, ter voz ativa, pensar… ah, aí realmente o incomôdo que causamos nos machistas é grande. Não vou colocar as dificuldades da minha área de atuação acima de qualquer outra: o machismo é muito democrático nesse sentido, não pouca nenhuma de nós, seja qualquer idade, classe social, profissão. Mas não é fácil lidar com reacionários assumidos (olha Cunha aí, geeeente!)

“Durante esse ano todo eu refleti bastante sobre ser feminista e sobre como esse movimento foi tomando a internet. De repente nenhuma pessoa pública estava livre de ser questionada sobre ser feminista. Uma pergunta que até dois anos atrás nem era cogitada se tornou praticamente obrigatória. Eu, você, os sites, as personalidades, a publicidade, a mídia, todo mundo se viu confrontado, meio que sem esperar, a se posicionar. A falar sobre. A ter uma opinião, a fazer alguma coisa a respeito. Todos esses birôs de tendência, que analisam o comportamento da sociedade, bateram o martelo: empoderamento é a palavra da vez. E todo mundo comprou a ideia.
Comprou.
Porque também tem a ver com vender.” Stephanie Noelle

E a partir daqui, a Noelle trás reflexões em seu texto que eu ainda não tinha pensado! Abordagens sobre as quais eu ainda não tinha me debruçado, então, vou escrever pouco (para esse post não ficar gigante) e deixar vocês na companhia dessa linda que levanta questionamentos importantes. Segue a Noelle:

“Se uma marca _seja de produto, seja de mídia_ vai contra a maré do feminismo, pode apostar que isso vai respingar na sua imagem. Ao menos na sua imagem online. Logo, as mais rápidas sacaram que quanto antes adotassem o discurso, menos problemas elas teriam. E aos trancos e barrancos, com muitas tentativas e alguns acertos, muita gente se embrenhou na selva feminista pra poder vender seu produto, seja qual ele fosse, com um pouco mais de paz.

Não me entendam mal: óbvio que é muito melhor uma propaganda ou uma revista que adote uma postura empoderadora do que o que estávamos acostumados a ver até então. De fato, muito mais legal ser tratada com respeito e como um ser pensante, múltiplo, do que apenas o famigerado sexo frágil que é apenas um objeto sexual e se importa apenas com sapatos e roupas.
Mas de novo, há todo um interesse por trás. E a gente sabe disso, não somos ingênuas.” Stephanie Noelle

Eu compreendo que é melhor uma abordagem publicitária visando a imagem da empresa, do que nada! Se dessa forma conseguirmos alcançar milhares de pessoas (como eu fui alcançada), excelente! Se fizermos homens refletir, mulheres se empoderar, ótimo que a marca tenha se engajado, ainda que, implicitamente, seu desejo seja a venda ou as meras curtidas e compartilhadas nas redes sociais para divulgação da empresa.

Só que precisamos ultrapassar essa visão simplista. E é isso que Noelle nos convida:

Quando bati o olho, gostei do que li. Fiquei feliz de ver quem eram as pessoas que escreviam o manifesto feminista, da Juliana de Faria, do Think Olga, passando pela Coletivo Blogueiras Negras até a Sofia Soter, da Capitolina.

Mas não me convenceu. E fiquei me perguntando por quê. O porquê de ultimamente eu estar -e mais um monte de gente com quem eu converso e convivo- com pé atrás com tudo que se apropria do discurso feminista.” Stephanie Noelle

Eu tive essa sensação de felicidade quando vi as capas, mas depois de ler o texto da Noelle, percebi que foi uma empolgação juvenil, e que a análise carecia de mais profundidade. Vocês também tiveram esse sentimento, de “preciso avaliar por outros ângulos?”. Eu tive! Aí vim dividir isso com vocês. Me contem aqui ou nas redes sociais o que vocês acham do texto, e desse momento em especial, no qual Noelle nos trás argumentos sólidos sob os quais precisamos :

“Por um lado é ótimo que as pessoas sejam expostas a um outro discurso, diferente daquele que sempre ouviram. E muitas a gente começa a se questionar e entender coisas a partir de iniciativas assim.

Mas acho que temos que ir além. Não queremos que eles peguem esse discurso de luta de um gênero que foi visto como menor durante boa parte da história da humanidade e usem pra ganhar nosso like e nossas palmas nas redes sociais. Na real, não é mais do que a obrigação da publicidade e da imprensa tratar mulher com respeito. Mas a gente ficou tanto tempo presa pelos paradigmas machistas que sim, qualquer coisa diferente parece algo grandioso. Todo mundo se sente assim. Respira aliviada quando uma marca, pra variar um pouquinho, não mostra a mulher como um ser sem cérebro. Mas isso é o mínimo.
A gente quer mais, muito mais.

O problema é estrutural, não superficial. É fácil se apropriar de um discurso que fala sobre poder feminino. Quem é que não quer levantar a bandeira do ‘girl power’ hoje?

Mas tem que falar disso. E falar das trans. E falar das negras. E falar do machismo. E falar dos padrões de beleza (reparou que só tem modelos magras na capa?). E falar das lésbicas. E discutir. E questionar. E aceitar quando tiver errado. E não calar. Não oprimir. Não tirar o protagonismo. E entender, até mudar. Não pontualmente. Não só pra vender mais absorvente ou mais revista na banca. Isso é demagogia. O pensamento feminista tem que estar na estrutura (de novo…) e não só como palavra forte pra chamar atenção porque, afinal, ‘estão todos falando sobre isso’. Na essência, não na aparência.

O caminho é longo e vai doer. Em todo mundo.” Stephanie Noelle

Uau! Como a gente tem um caminho longo pela frente ainda, né? Mudar o status quo, dissolver diferenças salariais e medos, ocasionar mudanças na estrutura de uma sociedade patriarcal… temos muito a fazer! Eu vou comprar a revista para ler os textos das feministas convidadas (uma delas eu não conhecia, então, justiça seja feita, a revista já me acrescentou rs). E vou compartilhar o conteúdo aqui com vocês (em post ou vídeo, aviso nas redes sociais assim que terminar de ler).

É isso, meninas. Deixem a opinião de vocês e vamos seguir o assunto!

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