» Comentando a matéria: "Movimentos não têm futuro sem partidos, afirma historiador" - Daniele Barreto
13
abril
2015
Comentando a matéria: “Movimentos não têm futuro sem partidos, afirma historiador”

Amigos, ontem, o historiador José Murilo de Carvalho deu entrevista ao portal do Estadão, na qual comentou sobre as manifestações e a forma como a oposição tem se comportado diante do cenário político. Li a matéria hoje cedo, e venho dividir com vocês a entrevista do Estadão e algumas considerações minhas.

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Como sempre fazemos na série “Comentando a matéria”, vou colocar o texto em vermelho e minha observações em negrito itálico.

Movimentos não têm futuro sem partidos, afirma historiador

Sem partidos fortes nem líderes nacionais, o movimento de rua contra a presidente Dilma Roussef não tem futuro, afirma o historiador José Murilo de Carvalho.

Já de início, acredito que muito mais do que a ausência dos partidos políticos e líderes nacionais (o que também discordo parcialmente), o movimento é natimorto pela falta de pautas objetivas e por que a maioria dos manifestantes desconhecem os motivos pelos quais se encontram ali. (tem vídeo com minha opinião sobre isso)

“O drama é que não há oposição que consiga dialogar com ele”, diz o autor de Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, entre outras obras.

“O grosso da oposição (partidária) adotou uma tática oportunista”, critica. Para o pesquisador, “a oposição formal apenas espera que o governo e o PT supostamente ‘sangrem’ até a derrota”. Seria necessário, opina, preparar já uma nova agenda para o país.

“Méritos e deméritos” dos governos petistas geraram a oposição de rua que agora prega o fim do ciclo do PT no Palácio do Planalto, avalia José Murilo. Ele lembra que os governos federais do partido desde 2003 melhoraram a renda de milhões de brasileiros e ampliaram o acesso à universidade.

Esses fatores, diz o historiador, aumentaram a capacidade crítica e de mobilização da população, que agora reage a outros efeitos que teriam sido gerados pelo petismo. Problemas como a corrupção, avalia, ajudaram a juntar nas mobilizações antigos e novos descontentes, que agora querem despachar a legenda do poder. “A incompetência, a arrogância e a corrupção quebraram o encanto”, declara o pesquisador. Ele ressalta que a esquerda perdeu a rua e “terá de se repaginar” se não quiser “ficar para trás”.

Para o historiador, os setores médios da população que se mobilizaram contra o governo Dilma vão às ruas “desde os anos 50” do século passado, com a campanha “O Petróleo é nosso”.

Ele avalia também que o conceito de “classe média” causa confusão nas análises, já que, para perceber quais são os seus interesses e lutar por eles, as pessoas precisam de certo grau de instrução e organização. Essas são características de setores intermediários. As críticas a isso, ironiza, vêm de intelectuais do mesmo extrato social que atacam.

Para José Murilo, a mobilização de 2015 tem a mesma “marca” da movimentação de setores médios que tiveram as Diretas-Já, em 1984, o movimento pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992, e as passeatas contra a Copa do Mundo no Brasil de junho de 2013. Dessas, diz ele, o atual movimento são continuação. Mas faltam ao País, afirma, políticos com a estatura de estadistas. “Que saudade de Ulysses (Guimarães) e Tancredo (Neves), Petrônio Portela, e mesmo de (Leonel) Brizola.” Leia a entrevista concedida por e-mail ao Estado.

Estadão – Em 15 de março, centenas de milhares de pessoas foram às ruas contra o governo Dilma. O senhor espera que esse público se repita no dia 12 de abril?

José Murilo de Carvalho – Não me arriscaria a prever. O mal-estar continua, se não aumentou. Mas marchas muito frequentes podem também cansar. As demonstrações de ontem (terça-feira passada, promovidas pela CUT contra o projeto que amplia as terceirizações) já caíram muito em relação à anterior organizada pela mesma turma.

Com certeza, depois de deixar de ser “novidade”, as manifestações vão atrair cada vez menos gente. A não ser que surja um fato político novo muito relevante. Militar exige disciplina e dedicação, organização e constante trabalho. Não dá para achar que os que estiverem engajados por “obaoba” vão sustentar suas ações por muito tempo.

Estadão – Um dos pontos sobre esse movimento é que é basicamente de classe média, com poucos pobres. Isso ocorreu em outros momentos da história brasileira?

José Murilo de Carvalho – Esse conceito de classe média confunde mais do que ajuda. Refere-se a grupos complexos e mutáveis de pessoas. De modo geral, desde os anos 50 vão para a rua pessoas que têm condições de perceber seus interesses e de lutar por eles. Isto exige certo grau de educação e de organização: associações, sindicatos, internet. Grupos intermediários têm essas condições. O povão, quando se manifesta, em geral é sob formas menos pacíficas: invasões, quebra-quebras. Diretas-Já, Impeachment (do então presidente Fernando Collor em 1992) e junho de 2013 tiveram a marca de setores intermediários. Sob o nome de classe média, causam urticárias em intelectuais orgânicos da chamada esquerda, todos eles, naturalmente, de classe média, ainda presos a definições superadas. Mas no mundo de hoje, com a diluição das barreiras entre as classes pela dinâmica social, eles (esses setores) serão cada vez mais decisivos.

Rolou uma indireta para Marilena Chauí. hahaha Mas vamos lá: eu concordo que seja um movimento de classe média, e diria mais: muito voltado para o eleitor de Aécio. Não temos visto muitos partidários da presidente, ainda que contrários à corrupção, participando dos protestos. Não adiantar tentar encaixar a pecha de que não é um movimento político e de que não tem vinculação com os eleitores de Aécio, porque o movimento é exatamente ligado a isso. Especialmente por acontecer após a eleição, podemos ver mais claramente que se trata de manifestação política partidária (ainda que a maioria que ali esteja não perceba isso). Veja bem: o fato de você não perceber que está participando de um movimento partidário com interesses claros e que tem servido para aumentar o poder de barganha de um grupo político frente ao governo, não significa que não seja. É. Cabe a você perceber e saber se está ou não se deixando conduzir.

Estadão – Há quem compare a mobilização, pela composição social e por algumas bandeiras, como saída da presidente constitucional, intervenção militar, críticas a programas sociais, às Marchas da Família que precederam o golpe de 64. Esse paralelo é justo?

José Murilo de Carvalho – Em 1964 houve grande polarização e ameaças de golpe vinham dos dois lados. Venceu quem conseguiu o apoio majoritário das Forças Armadas, com a ajuda da Guerra Fria e da histeria anticomunista, que uniu setores médios e povão. Hoje, o golpismo é residual nas marchas e só serve para fornecer combustível ao establishment governamental.

Estadão – Trata-se de um movimento sem líderes de massa, sem partidos, sem entidades, com base nas redes sociais. Isso tem futuro?

José Murilo de Carvalho – Não tem. O drama é que não há oposição que consiga dialogar com ele. O grosso da oposição adotou tática oportunista de ver o governo e o PT sangrarem, sem preparar uma nova agenda que atenda as demandas atuais.

Há, sim, presença de partidos políticos nas manifestações. Seja de forma explícita ou implícita. Explicitamente, na Bahia, pelo menos na primeira manifestação do dia 15 de março, vários políticos (inclusive alguns com passado e presente questionáveis) participaram, colocaram fotos nas redes sociais, postaram mensagens convocando a população. E implicitamente, muitos. Além de comandarem redes de TV locais que convocam para as manifestações, alguns grupos organizados são financiados (nas redes sociais) por políticos da oposição. Não resta dúvidas para mim – observando o comportamento dos manifestantes e a postura da oposição – que boa parte dos participantes servem de massa de manobra política.

Mas concordo que a falta de agenda da oposição tem sido um problema. Inerte durante 12 anos, a oposição vê no desgaste natural do PT uma forma de obter dividendos políticos. Além disso, uma parcela desses que hoje se intitulam oposição (a exemplo do PMDB), possuem um exército de cargos e diversos contratos, como parte do seu espaço. Não dá para concordar/defender uma oposição silente e oportunista.  

Estadão – Pode-se dizer que março/abril de 2015 é uma continuidade de 2013?

José Murilo de Carvalho – Sem dúvida. A única diferença é que, vindo após a eleição, (o movimento atual) agregou um conteúdo mais político. Mesmo assim, o antipartidarismo ainda era forte e a oposição foi suficientemente sábia em não tentar participar das marchas.

Em 2013, efetivamente, se coibiu a presença de políticos nas manifestações (alguns, inclusive, foram expulsos) e não se permitiu que partidos políticos capitalizassem os protestos. Ao contrário de 2015 que muitos partidos conseguem não só comandar a agenda política de Dilma, como ganhar mais espaço, através da utilização do “povo nas ruas”.

Estadão – Não é estranho, depois de tudo o que o Brasil passou na Ditadura, ver tanta gente, inclusive jovens, pedindo intervenção militar no País?

José Murilo de Carvalho – Ainda não vi pesquisas que indiquem que essa tendência tenha um significativo. Será mesmo “tanta gente”?

Pelos vídeos e fotos que vi das manifestações, é gente suficiente para eu ficar alarmada.

Estadão – Por que os governos petistas geraram passeatas que pedem sua saída?

José Murilo de Carvalho – Por méritos e deméritos. A política social de melhorar a renda e ampliar as matrículas nas universidades resultou em aumento de expectativas e da capacidade crítica, portanto da mobilização. A incompetência, a arrogância e a corrupção quebraram o encanto e levaram antigos e novos descontentes às ruas.

Estadão – Muitos manifestantes, ao atacar o governo, pedem “o seu Brasil de volta”. O que tem mais peso nas manifestações: as denúncias de corrupção ou as mudanças na sociedade, como cotas, programas sociais, redução de desigualdades?

José Murilo de Carvalho – As coisas estão ligadas. Os governos do PT, sobretudo o último, dilapidaram o patrimônio que tinham construído.

Estadão – Para ter fôlego, um movimento como esse precisa de um projeto político mais bem definido que avance em relação ao “Fora Dilma”?

José Murilo de Carvalho – Esse é nosso problema e nossa desvantagem em relação à Espanha. O “Fora Dilma” só leva a (Michel) Temer (o vice-presidente). A tradução das manifestações em instrumento político de intervenção eficaz e duradoura será conquista difícil, se vier a ser.

Algumas pesquisas mostram que boa parte dos manifestantes desconhecem o vice-presidente que assumiria no lugar de Dilma. E não possuem clareza sobre as consequências das manifestações e da saída da gestora do cargo. (sobre isso, escrevi texto aqui no final de semana, LEIA AQUI)

Estadão – Como a oposição tem tirado proveito da insatisfação com o atual governo?

José Murilo de Carvalho – Ela se tem beneficiado, mas, como disse, de maneira oportunista, sem novas propostas. Falta-lhe imaginação, grandeza política e cívica. Aliás, a falta geral de estadistas hoje é dramática. Que saudades de Ulysses e Tancredo, Petrônio Portela, e mesmo de Brizola.

Concordo e acredito que é o motivo que mais me motiva a não participar das manifestações. Oportunista, a oposição capitaliza as manifestações. Uma parcela da oposição história como DEM e PSDB, não apresentou, em 12 anos, nenhuma proposta nova de governo; além de ter feito oposição pífia, vagarosa e inerte. Outra parcela não possui legitimidade, por ser composta por partidos da base aliada que muito se beneficiam de cargos e contratos, inclusive indicaram o vice e possuem ministérios. E, como o historiador bem colocou, nos faltam líderes, estadistas, especialmente com o crescimento do chamado baixo clero, que vem aumentando o custo de transação com o Congresso.

Estadão – A classe média conservadora aprendeu com a esquerda a se mobilizar, copiando algumas das formas de organização esquerdistas?

José Murilo de Carvalho – Quem é a classe média conservadora? Quem é a classe média não conservadora? Os setores médios estão nas ruas desde a década de 1980, com a campanha “O Petróleo é Nosso”.

Estadão – A Esquerda perdeu a rua?

José Murilo de Carvalho – Se você chama de esquerda o PT, o movimento sindical, o MST e semelhantes, a evidência do momento é que perdeu. Ela também vai ter que se repaginar. O Brasil está caminhando, quem não perceber vai ficar para trás.

Estadão – As redes sociais são a base para as mobilizações. Essas manifestações seriam um fenômeno típico da internet, sem maiores consequências?

José Murilo de Carvalho – São um fenômeno da internet, que mudou a dinâmica e a natureza da participação política, fenômeno que as instituições ainda não conseguiram absorver.

E vocês, o que acharam das questões levantadas pelo historiador?

Aguardo vocês nas redes sociais!!!

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