» Parteiras da Floresta: incentivo ao parto normal e parteiras no Amapá - Daniele Barreto
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27
janeiro
2015
Parteiras da Floresta: incentivo ao parto normal e parteiras no Amapá

Oi, galera, bom dia!!!!!!

Como vocês sabem, fiz uma viagem ao Amapá no mês de dezembro e venho contar mais sobre as descobertas que vivenciei por lá.

E hoje queria falar com vocês sobre um assunto que tenho enorme curiosidade, mas que só recentemente comecei a ler mais: as parteiras.

Claro que parece, a primeira vista, um tema ultrapassado, tendo em vista a tradição de partos cesárias em hospitais e a evolução da medicina convencional. Mas o tema volta ao cenário nacional depois que Dilma resolveu estimular os partos normais, através de ações do Ministério da Saúde.

Óbvio que se tratam de duas questões que não são idênticas. O estímulo ao parto normal e o parto com doulas e parteiras são coisas diferentes. Mas resolvi abordar no mesmo post por ser, em geral, questões relacionadas ao parto humanitário. Então, vamos conhecer, juntos, um pouco mais sobre o Amapá, as novas políticas adotadas pelo Governo sobre o parto, a função das parteiras e doulas, e a tradição do Amapá (onde as Parteiras da Floresta realizam milhares de partos).

Incentivo ao parto normal

No dia 07 de janeiro, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Saúde Complementar publicaram uma resolução que estabelece normas para estímulo do parto normal e diminuição das cesarianas (cujo número é considerado alto). Muito vem sendo discutido sobre os planos de saúde empurrarem as gestantes para a cesariana (cujo procedimento é mais caro e, portanto, o plano ganha mais dinheiro), num país em que cerca de 23,7 milhões de mulheres são beneficiárias de planos de assistência médica com atendimento obstétrico no país.

O Governo, na apresentação das medidas, afirmou se tratar de uma epidemia de cesarianas. E não será fácil reverter a tradição de partos cesarianas.

Números divulgados pelo Governo Federal:

❋ o percentual de partos cesáreos chega a 84% na saúde suplementar

❋ as cesáreas são 40% dos partos na rede pública

taxa recomendada pela OMS é de 15%

❋ a cesariana sem indicação médica aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe

❋ 25% dos óbitos neonatais e 16% dos óbitos infantis no Brasil estão relacionados à prematuridade

Obrigações das operadoras de saúde:

❋ dar acesso às consumidoras de planos de saúde às informações sobre cirurgias cesáreas e de partos normais, em 15 dias após a solicitação

❋ fornecer o cartão da gestante, de acordo com padrão definido pelo Ministério da Saúde, no qual deverá constar o registro de todo o pré-natal (qualquer profissional de saúde terá conhecimento de como se deu a gestação)

❋ as operadoras devem orientar que os obstetras utilizem o partograma, documento gráfico que detalha como foi o parto, processo necessário para o pagamento do parto (com ele é possível saber quais complicações justificaram as decisões tomadas pela equipe médica)

Prazo para implementação:

❋ as regras passam a ser obrigatórias em 180 dias

“Não podemos aceitar que as cesarianas sejam realizadas em função do poder econômico ou por comodidade. O normal é o parto normal. Não há justificativa de nenhuma ordem, financeira, técnica, científica, que possa continuar dando validade a essa taxa alta de cesáreas na saúde suplementar. Temos que reverter essa situação que se instalou no país. É inaceitável a epidemia de cesáreas que há hoje e não há outra forma de tratá-la senão como um problema de saúde pública”, Arthur Chioro.

Parteiras do Amapá

Trouxe esse assunto do parto normal para falar mais um pouco da viagem que fiz ao Amapá, na qual, inclusive, aproveitei para conhecer cidades do interior como Santana e Tartarugalzinho.

Em Tartarugalzinho, numa viagem com a equipe da Natura, conheci algumas mulheres fortes e guerreiras que transformam a vida de milhares de pessoas no meio da Floresta. Dentre elas, algumas parteiras que já realizaram centenas de Amazônia.

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Foto Internet

Claro que o parto natural de que trata o Governo não é com parteira; trata-se, na recomendação visando o aumento de partos normais, em hospitais, por procedimentos médicos pagos por planos de saúde. Mas como eu já estava absolutamente encantada com as parteiras que conheci e também fiquei curiosa pelo assunto trazido à baila pelo Ministério da Saúde, aproveitei para juntar os dois assuntos nesse post, que, na verdade, reflete minha preocupação e interesse em saber mais sobre o parto humanitário (seja ele realizado por médicos com estrutura hospitalar ou mulheres em casas simples no meio da floresta).

A parteira é a profissão feminina mais antiga do mundo, surgiu com o nascimento dos primeiros bebês – quando mulheres passaram a auxiliar outras nesse momento. A profissão volta a ter visibilidade com o movimento em favor do parto humanizado. A parteira trás bons resultados nos partos sem risco e sua principal preocupação é o bom andamento do trabalho de parto.

Elas podem ser parteiras tradicionais (que são aquelas que não possuem estudo técnico e vivem em regiões rurais ou afastadas – o que é o caso das que conheci no interior do Amapá), enfermeiras obstetras ou obstetrizes, formadas em cursos específicos e reconhecidos.

As parteiras podem ter formação técnica ou conhecimento prático, e com sua experiência podem usar como: manobras e posições, chás e alimentos, medicamentos, banhos de ervas, massagens e rezas, usar oxigênio, medicamentos para conter hemorragias, fazer suturas e reanimações.

Encontro Internacional das Parteiras Tradicionais (Amapá) / Foto Internet

Encontro Internacional das Parteiras Tradicionais (Amapá) / Foto Internet

O Amapá é o Estado brasileiro onde mais se faz partos normais. As mulheres na Amazônia são responsáveis por ajudar milhares de outras mulheres a dar à luz. E assim povoaram o Estado por gerações. São pescadoras, donas de casa, agricultoras, extrativistas que são chamadas a qualquer hora do dia ou da noite para invadir ruas e florestas a dentro para auxiliar as parturientes. Algumas recebem como pagamento valores de R$ 10 a R$ 40 reais, ou cereais e galinha, mas a maioria se nega a qualquer auxílio pois acreditam que foram escolhidas por Deus para “puxar barriga” e “pegar menino”.

Eu conversei com uma das parteiras do município de Tartarugalzinho, veja o vídeo:

foto

Fonte Internet

Nas pesquisas que fiz na internet após voltar de viagem, me deparei com a figura da Mãe Luzia – uma uma mulher surpreendente, que nasceu em 1854; era descendente de escravos e pelas suas mãos nasceram milhares de crianças de várias gerações.

O coronel Coriolano Jucá (espécie de prefeito de Macapá em 1895) a convidou para trabalhar como parteira, com remuneração. Além de trabalhar como lavadeira e passadeira durante o dia. Lavava roupa com os seios expostos, como seus ancestrais, porque sempre aparecia um filho de parto para amamentar, e vestia uma bata branca quando autoridades chegavam a sua casa para receber conselhos.

Parteiras da Floresta, por Eliane Brum

Aproveito para compartilhar trechos desse texto lindo da Eliane Brum:

Parteiras da Floresta, Por Eliane Brum

Elas nasceram do ventre úmido da Amazônia, no extremo norte do Brasil, no Estado esquecido do noticiário chamado Amapá. O país pouco as escuta porque perdeu o ouvido para os sons do conhecimento antigo, para a música de suas cantigas. Muitas não conhecem as letras do alfabeto, mas são capazes de ler a mata, os rios e o céu. Emersas dos confins de outras mulheres com o dom de pegar criança, adivinham a vida que se oculta nas profundezas. É sabedoria que não se aprende, não se ensina nem mesmo se explica. Acontece apenas.

Esculpidas por sangue de mulher e água de criança, suas mãos aparam um pedaço ignorado do Brasil. O grito ancestral ecoa do território empoleirado no cocuruto do mapa para lembrar ao país que nascer é natural. Não depende de engenharia genética ou operação cirúrgica. Para as parteiras, que guardaram a tradição graças ao isolamento geográfico do berço, é mais fácil compreender que um boto irrompa do igarapé para fecundar donzelas que aceitar uma mulher que marca dia e hora para arrancar o filho à força.

Encarapitadas em barcos ou tateando caminhos com os pés, a índia Dorica, a cabocla Jovelina e a quilombola Rossilda são guias de uma viagem por mistérios antigos. Unem-se todas pela trama de nascimentos inscritos na palma da mão. Pegar menino é ter paciência“, recita Dorica, a mais velha parteira do Amapá. Aos 96 anos, mais de 2 mil índios conheceram o mundo pelas suas mãos. “Mulher e floresta são uma coisa só“.  “A mãe-terra tem tudo, como tudo se encontra no corpo da mulher. Força, coragem, vida e prazer.”

Das entranhas do corpo feminino Dorica nada arranca, apenas espera. “Puxa” a barriga da mãe endireitando a criança, lambuzando o ventre com óleo de anta, arraia ou mucura (gambá) para apressar as dores. Perfura a bolsa com a unha se for preciso e corta o cordão umbilical com flecha se faltar tesoura. Pegar menino é esperar o tempo de nascer. Os médicos da cidade não sabem e, porque não sabem, cortam a mulher.”

As parteiras da floresta comungam da religião católica. Algumas adotaram as pentecostais. Outras são espíritas, batuqueiras. Mas no coração vive uma religião antiga, em que a grande deidade era feminina. Aquela que governa o nascimento-vida-morte, presente-passado-futuro. Hoje, mesmo invocando um deus masculino, o Espírito Santo ou os orixás, elas guardam uma herança silenciosa em que o feminino é fonte de toda a vida, e cada mulher é a guardiã do mistério. Quando remam quilômetros por rios ou vão “de pés” para auxiliar uma igual a consumar o milagre da vida.

O parto é símbolo de resistência, uma lembrança subversiva de que cada mulher guarda um pouco da deusa.

O que essa mulherada sofre na maternidade é um golpe. Aqui, se o menino acomodou de mau jeito, a gente vai e dobra. Vou puxando até ele se ajeitar, botar a cabeça no lugar. Aí não precisa cortar. Médico, coitado, não sabe dobrar menino.” Parto é mistério de mulher. Feito por mulheres, entre mulheres.

Está além da compreensão das parteiras da floresta que a vida se desenrole no hospital, como se doença fosse. Parto não é sofrimento. É festa. Rossilda, 63 anos, do quilombo do Curiaú, pega o rumo de cada parto acompanhada de outra parteira, Angelina. Em espírito invocado, porque Angelina deixou este mundo há muito. Vencidas as nove luas, os homens são despachados para não fazer zoada. Parto é festa feminina. Rindo um pouco, rezando outro tanto, de branco dos pés à cabeça, Rossilda vai ajeitando a criança, vigiando a dor. Quando se vê, “lá vem o menino escorregando pro mundo“.

Assim como a criança, o dia nasce sem outra força que não seja a da natureza. Surge em hora precisa, sem que ninguém tenha de arrancá-lo do ventre da noite.

Do útero circular, a índia Nazira aviva a chama: “Índia, crioula, brasileira, é uma dor só. O mesmo coração de mulher“. Aos 92 anos, Juliana é a mais antiga parteira de Macapá: “Nasci em 20 de janeiro de 1908, dia de São Sebastião. Casei com 15 anos, por amor e mais nada. Comecei a partejar com fé em Deus e sozinha. Fiquei com as mãos aleijadas pelo sangue da mulher. Este sangue é muito forte, vai encaroçando sem que a gente faça fé. Minha única filha não quis que eu aparasse o menino, morreu de parto por sua vontade. Quando me chamaram já era tarde, minha filha estava perdida. Neste mundo fiz 339 filhos de pegação. Era importante a vida antiga porque de tudo se entendia. Agora não se entende é mais nada“.

Aproveitem para assistir o vídeo com entrevista de Eliana Brum com as parteiras! Aperta o play:

Sua opinião 

Ressalto que conheço muitooo pouco sobre o assunto. Não tenho formação na área de saúde, tampouco sou pesquisadora ou estudiosa do tema. Inclusive, nunca pari. O que despertou meu interesse inicialmente foi a conversa que tive com as parteiras em dezembro do Amapá. Voltei bem curiosa sobre o assunto. Como em menos de um mês, Dilma lançou as recomendações para estimular o parto normal, juntei as duas coisas e resolvi escrever esse post para dividir essa minha descoberta com vocês.

Se você é profissional de saúde, lê sobre o tema, ou é mulher e gostaria de contar sua experiência, fique a vontade. Mande suas dúvidas também, para discutirmos juntas. Será maravilhoso para mim poder conhecer mais!!! :-)

Nos próximos posts ou contar muito mais sobre o Amapá, com informações políticas e looks Riachuelo, além de posts especiais sobre a Natura! Não perca!!! 

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Bjo.